Cavaquinistas

- Naturalidade
- Recife - PE
- Nascimento
- 21/09/1937
- Afinação
- ré-sol-si-ré
Mestre Siqueira
José Siqueira de Alcântara
José Siqueira de Alcântara nasceu no dia 21 de setembro de 1937, em uma família de intensa atividade musical e cultural, no bairro de Água Fria, em Recife (PE). Seu avô, Pedro Gomes de Alcântara (conhecido como Pedro da Ferida), foi o líder fundador do Maracatu Porto Rico de Água Fria — agremiação na qual Siqueira chegou a desfilar com apenas cinco anos de idade. Sua mãe, Josefa Alcântara Goulart, era pianista e também uma respeitada Yalorixá (Mãe de Santo), famosa por suas ações de caridade. Ela abrigava crianças em situação de rua em sua própria casa, já no bairro da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. Com o tempo, essa iniciativa transformou-se no Movimento Educacional Josefa Alcântara Goulart - Centro Integrado São José, instituição filantrópica que permanece ativa até hoje. O pai, Manoel Siqueira do Nascimento, era um boêmio bandolinista que promovia regularmente reuniões de chorões em casa nos fins de semana.
No início da década de 1950, após o falecimento do pai, a família partiu para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. Na Cidade Maravilhosa, Siqueira se encantou por um instrumento que chamava de "violão pequeno", sem imaginar que se tornaria uma das grandes referências do cavaquinho. Sua mãe, temendo que o filho seguisse a vida boêmia, repudiava a escolha. No entanto, a determinação do jovem falou mais alto: aos 13 anos, já trabalhando para ajudar nas despesas de casa, Siqueira juntou dinheiro, comprou o cavaquinho escondido e chegou com o instrumento embrulhado. Diante de tamanha perseverança, Dona Josefa cedeu e respeitou a escolha do menino.
Como muitos cavaquinistas de sua geração, Siqueira começou como autodidata, aprendendo sozinho ao ouvir o rádio e tocar em rodas com amigos. Curiosamente, no início, sua especialidade era executar as melodias, sem dar muita atenção à parte harmônica. As primeiras noções de acompanhamento vieram mais tarde, ensinadas pelo amigo Carlos Silva e Souza, o popular Caçula. A partir dali, sua trajetória musical se agigantou. Passou a se apresentar constantemente em gafieiras, rodas de choro e de samba, ambientes onde refinou sua técnica instrumental particular e conviveu com grandes mestres.
Entre suas referências mais marcantes estão Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Garoto e Zé Menezes. Siqueira destaca, ainda, a importância do cavaquinista de cinco cordas Ary Duarte (conhecido por suas parcerias com o flautista Altamiro Carrilho) como uma de suas grandes inspirações. Siqueira construiu sua carreira majoritariamente como músico acompanhador, tocando ao lado de ícones da música brasileira, como Jamelão, Moreira da Silva, Alcione, Nelson Gonçalves e Ademilde Fonseca, além de ter integrado a última formação do grupo de Pixinguinha e a Velha Guarda da Mangueira.
Sua veia de compositor pulsa desde o início de sua caminhada musical. Contudo, suas criações acabaram ficando em segundo plano por muito tempo; a complexidade harmônica de suas peças dificultava o compartilhamento com os músicos contemporâneos. Mesmo assim, ele nunca parou de criar, acumulando um vasto repertório autoral que, até poucos anos atrás, existia apenas em sua memória.
Em 2010, cientes do imenso valor artístico daquela obra e do risco de ela se perder, os jovens músicos Wellington Monteiro e Pedro Cantalice uniram forças para preservá-la. A ideia inicial de transcrever as melodias da memória do Mestre para a partitura expandiu-se, graças ao apoio de amigos, e transformou-se no projeto de gravação de um CD independente. O álbum contou com a participação de 60 músicos que, por profunda admiração a Siqueira, abriram mão de seus cachês.
Três anos após o início das gravações, em 8 de junho de 2013, o CD intitulado Siqueira Entre Nós foi lançado na Sala Municipal Baden Powell, em um show marcado por grande emoção, participações especiais e casa cheia. Com o disco em circulação, o talento de Siqueira como compositor e intérprete finalmente alcançou um público mais amplo. Marco Arruda, percussionista e produtor artístico do projeto “Siqueira e o Cavaquinho Brasileiro”, conseguiu viabilizar, por meio de editais de intercâmbio cultural, viagens para Portugal, Argentina e França. Nessas turnês, o Mestre divulgou sua vida e obra em palestras e apresentações, conquistando o merecido reconhecimento internacional.
Hoje, Siqueira soma três álbuns autorais lançados e diversos prêmios que celebram sua trajetória dedicada ao instrumento. Ele segue compondo, brilhando em shows e rodas de samba pelo Rio de Janeiro e mantendo viva sua maestria, tanto no centro do palco quanto na Nobre arte de acompanhar.
